“Mil acasos me levam a você, no mundo concreto ou virtual, me levam a você de um jeito desigual. Quem sabe, então, por um acaso perdido no tempo ou no espaço, seus passos queiram se juntar aos meus, seus braços queiram se juntar aos meus.”
“Desculpar eu desculpo sempre, só que tem palavras que machucam e machucam feio.”
“Sentar na cadeira e olhar pro teto é sinônimo de ligar pra você e perguntar sobre nós.
— Alô — Você atende com uma voz mansinha, do tipo que parece que acabou de acordar.
— Oi? Eu não deveria ligar para você mas estou ligando assim mesmo porque como você sabe, eu nunca faço aquilo que deveria ser feito, só faço o contrário.
— Ah, oi. — Você responde seco.
— Eu só preciso dessa ligação, tá legal? Mais nada. Depois que eu desligar esse telefone você pode xingar palavrões e me odiar eternamente, mas enquanto eu estiver falando, você vai ficar calado e ouvir toda a merda que eu tenho pra te dizer, embora não tenha mais importância.
— Pode falar, eu tô ouvindo. — Foi arrogante, hipócrita e sarcástico em apenas uma frase.
— A gente se conheceu quando eu era um monte de nada e você parecia demais pra mim. Quando eu estava desacreditada de tudo e só queria sossego, paz e distância de tudo aquilo que você era. Eu não queria me envolver, juro que não, eu sempre quis que tudo fosse só um joguinho para nós dois, mas não, não foi assim e parece que desde a primeira semana a gente sabia que ia ser diferente e que não dava mais pra correr de tudo que estava chegando. Eu sabia que era amor, eu sempre soube e vivia repetindo que não era, que era carência. Lembro daquele dia que a gente foi comer no meu quarto e eu te servi café e biscoitos, mas você recusou e disse que era alérgico a café e vomitava todas as vezes que comia biscoito doce. Você olhou pra mim com cara de cachorro pidão e eu percebi que você era mais frágil do que parecia ser e que naquela hora, naquela merda de hora, era a hora que eu devia dizer que te amava. E, incrivelmente, você disse “eu te amo” de volta. Aí a gente transou o dia inteiro. Mas dane-se isso, o que importa, o que sempre importou é que a gente se amava de maneira saudável sem muita coisa pra magoar caso alguma coisa acontecesse, alguma coisa do tipo que você fosse embora e parasse de me amar com a mesma rapidez que a gente bebe refrigerante e arrota. E essa porra de “alguma coisa” aconteceu a dez dias atrás quando você riu e disse que tinha me superado. Eu não consigo entender como alguém pode superar algo que tem nas mãos e que até na noite anterior você jurava amar. Engraçado como você esquece tudo que sentia por mim em apenas alguns minutos, pega o telefone, me liga e diz que acabou. Eu nunca vou aceitar o nosso fim, não desse jeito ridículo que acabou. Porque era mais simples você nunca ter aberto a boca pra dizer que me amava. E pior do que você ir embora dizendo que me superou, é saber 10 dias depois que você já tá por aí andando de mãozinha dada com aquela loira que eu sempre detestei e que você sempre olhou pra bunda dela. Eu juro que pensei que você tava sofrendo e arrependido, eu juro, cara. Eu olhava pro telefone, pro computador, pro portão, esperando qualquer sinal seu, sei lá, esperando você me pedir desculpas e dizer que estava com saudades. Então 10 dias depois você já está com outra comprovando pra todo mundo que já me superou. Mas eu só quero entender uma coisa, uma única e maldita coisa que não me deixa dormir: Como você consegue superar alguém que jurou amar a vida inteira, em apenas 10 dias?
— (…).
— Anda, eu tô esperando a tua resposta. Depois que você me responder, eu prometo esquecer o teu número e nunca mais vou te perturbar. Só me responde como você conseguiu superar alguém que jurou amar a vida inteira, em apenas 10 dias.
— Se eu amasse esse alguém mesmo, eu não teria o superado em 10 dias.
(Chamada encerrada.)”
“Sabe, cara, eu tenho que confessar que quando eu mandei ela embora, eu fiquei esperando ela voltar. Eu fiquei exatos 145 dias esperando uma ligação, uma mensagem, até um sinal de fumaça eu tava aceitando. Eu lembro que a última vez que eu a vi, ela vestia uma calça jeans e uma blusa rosa que deixava ela mais linda do que se ela estivesse de vestido e salto alto. Eu sempre gostei disso nela, dessa coisa dela parecer mais bonita que todo mundo mesmo que tivesse de pijama e maquiagem borrada. Ela tem uma coisa diferente, sabe? Ela não é como as outras, ela gosta de rock mas eu lembro que ela sabia a letra inteirinha de uma musica do Restart. Ela vestia roupas curtas, mas ela ficava estranhamente inocente com essas roupas, parecia uma daquelas atrizes adolescentes de novela das oito. Ela era tão minha, só de olhar para ela eu sabia que ela era minha… Era… Não é mais porque eu achei que a vida com ela seria monótona demais, sei lá, achei que não ia dar certo porque a gente dava certo demais, e eu fiquei com medo de em algum momento ela ir embora e me deixar. E eu era desse tipo mesmo, que ligava pra quem terminava e pra quem era o mais forte e o mais inteligente, mas ela não sabia disso, ela nunca soube dessas minhas competições internas e mesmo assim sempre pareceu frágil demais, inocente demais. Ela me beijava com vontade de beijar o resto da vida, eu sentia isso, cara, eu sentia que ela gostava de mim como nenhuma outra garota nunca gostou. Ela se aninhava nos meus braços com uma facilidade tão incrível que parecia que ela tinha nascido para ficar escondidinha dentro do meu abraço. 145 dias e eu não consigo esquecer o jeito que ela olhava pra mim, como se eu fosse o melhor cara do mundo, como se eu valesse a pena e ela estivesse disposta a tudo por mim. Eu tinha aquela garota na palma da minha mão, eu poderia trair, brincar, até gritar, que ela ficaria comigo porque sempre soube que eu precisava dela, embora não falasse, ela sabia que eu já não imaginava um jeito de ficar longe dela. Mas se ela sabia, por que ela me deixou? Eu sei que a mandei embora, mas era pra ela ter ficado, cara. Só que ela foi embora, e levou tudo com ela, as calcinhas que ela pendurava sob o box e as camisetas que ela guardava na minha gaveta de meia. Levou aquele beijo, aquela voz gostosa e se levou de mim rápido demais. Eu fui um canalha, um babaca, um otário e outras essas coisas que ela me disse quando foi embora e deu aquele gritinho agudo dizendo que ela nunca deveria ter me conhecido. Na hora eu não senti nada, sei lá, fiquei olhando pra ela e deixei ela ir embora, mas depois, depois quando eu olhei pro box e não vi a calcinha dela lá, eu senti que tinha feito merda e que já era tarde demais, que eu tinha sido o cara mais burro do mundo e tinha perdido a única garota que gostou de mim mesmo eu dando motivos pra não gostar. Ela assistia futebol, ia à finais de campeonato comigo, ela torcia comigo, ela amava andar pela casa só de calcinha e sutiã, ela fazia uma massagem que só ela sabe fazer, ela não brigava comigo quando eu sumia e muito menos reclamava quando eu passava uma semana sem dar sequer um telefonema. Ela gostava de mim, ela me amava, não amava? Agora me diz porque eu mandei ela embora. Eu tinha a garota perfeita, a namorada perfeita, a mulher perfeita, e poderia ter pro resto da vida se quisesse. Mas eu mandei ela embora e ela não me liga mais. Ela sai com os amigos e dizem que ela está feliz. Ela encontrou alguém melhor do que eu. Ela está bem, não está? Então por que eu não estou? Nesses 145 dias eu senti a falta dela. E hoje no 146° dia, eu sinto a falta dela pra caralho.”